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A Revolta dos Negros Malês (Muçulmanos)


A ênfase dada à autonomia das províncias pelas revoltas regionais, ameaçou seriamente a unidade política da ex-colônia portuguesa. Esses movimentos contaram com a participação de grupos sociais que até então havia sido completamente marginalizados do processo políticos. Ex: lavradores sem terra, pobres urbanos, libertos, soldados e, em alguns casos, até mesmo escravo.

A Bahia destacou-se como uma das regiões mais agitadas do país. Entre 1820 e 1840, a província foi palco de um conflito anticolonial, revoltas, motins antiportugueses, quebra-quebras e saques populares, rebeliões liberais e federalistas, com laivos republicanos, e levantes de escravos. Todos os seguimentos da sociedade participaram: artesãos, vendedores e outros trabalhadores de rua, lavadeiras, vagabundos, prostitutas, minoritários pobres brancos e outros. Os pobres viam os comerciantes e taverneiros portugueses como adversários mais importantes, adversários sociais e até pessoais, pois eram suspeitos de especular com os preços dos bens de primeira necessidade num momento já perturbado pela inflação e pela escassez.

No plano prático, as manifestações de rua davam-lhe a chance de saquear com gosto os armazéns europeus e saborear boa comida por um ou dois dias. Tantos os europeus como os brancos da terra cultivavam a arrogância racial, considerando-se superiores a mestiço e negros.Esse clima de conflagração explica em parte o aparecimento da rebelião dos negros.

Na noite do dia 24 para 25 de janeiro de 1835, um grupo de africanos escravos e libertos ocupou as ruas de Salvador, Bahia, e durante mais de três horas enfrentou soldados e civis armados. Os organizadores do levante eram malês, termo pelo qual eram conhecidos na Bahia da época os africanos muçulmanos. (língua Ioruba)

Embora durasse pouco tempo, apenas algumas horas, foi o levante de escravos urbanos mais sério ocorrido nas Américas  e teve efeitos duradouros para o conjunto do Brasil escravista. Centenas de insurgentes participaram, cerca de setenta morreram e mais de 500 numa estimativa conservadora foram depois punidos com pena de morte, prisão, açoites e deportação. Se uma rebelião das mesmas proporções acontecesse na virada para o século XXI em Salvador , com seus quase 3 milhões de habitantes, resultaria na participação de 24 mil pessoas. Isso dá uma idéia da dramática experiência vivida pelos africanos malês, (muçulmanos) e os outros negros e habitantes da Bahia em 1835.

A rebelião teve repercussão nacional e internacional. No Rio de janeiro uma notícia detalhada chegou ao público por meio de relatórios do chefe de polícia da Bahia. Temendo que o exemplo baiano fosse seguido, as autoridades cariocas estreitaram as vigilâncias sobre os negros e principalmente os malês (muçulmanos) locais, sobretudo na Corte imperial. Além de disseminar o medo e provocar o aumento do controle escravo em todo o Brasil, os rebeldes também reavivaram os debates sobre a escravidão e o tráfico de escravos da África, agora vistos com olhos mais críticos. Em Londres, Nova York, Boston e provavelmente outras localidades da Europa e das Américas, a imprensa também publicou relatos do levante liderado pelos negros malês (muçulmanos).

A estratégia

O levante aconteceu num momento de expansão do Islam entre os africanos que viviam na Bahia. Acreditamos que o levante foi uma estratégia para facilitar essa expansão, pois sabemos que o Islam é totalmente contrário a escravidão. E para que houvesse a possibilidade de instituir uma sociedade Male (muçulmana) ou um Califado (Governo Islâmico) era de suma importância que os negros conseguissem sua liberdade, e toda a instabilidade que acercava o Império Português, propiciava os planos islâmicos. O próprio fato de africanos escravos e libertos professarem o Islam configurava uma cisão, um afastamento radical da máquina ideológica escravista e, portanto, uma rebeldia. Sei que logo no artigo 5 da constituição de 1824 o Catolicismo constava como a religião do Estado, única com direito a celebrar cerimônias públicas e estabelecer templos em qualquer localidade. Concediam apenas liberdade religiosa privada, uma concessão sobretudo aos estrangeiros livres, na época os brancos europeus que residiam no Brasil. As religiões africanas eram perseguidas, qualquer religião que não fosse a do Cristianismo, era tratado como feitiçaria, superstição. Isso não mudaria após a independência, pois continuariam a ser tratados na órbita policial, e não constitucional. Nesse sentido, os negros Malês (muçulmanos) eram tratados como marginais. Um dos Mestres (Iman) preso em 1835, Elesbão do Carmo, o Dandará, aparece nos autos da polícia como acusado de participar das insurreições do período dos Condes dos Arcos. Segundo uma testemunha , ele “por ser esperto sempre escapou de ser preso”. Ele não deve ter sido o único esperto, é claro!

Depois da prisão do líder principal o Iman Pacífico Licutam no final de 1834 ao início de 1835 coincide com a chegada de outro importante líder para a sua substituição, o Iman Ahuna, vindo de Santo Amaro.

A perspicácia desses líderes (imans) foi fundamental na consolidação de uma estrutura organizacional rebelde. Enquanto o número de convertidos e simpatizantes aumentava sem qualquer promessa concreta de revolta, eles avaliavam seus liderados, seduziam novos recrutas, estudavam as condições políticas, meditavam sobre o melhor momento de se rebelar. Para eles era importante escolher um momento estratégico de acordo com a vontade de Alláh (Deus). Para isso contavam com a confiança e o respeito de muitos discípulos dispostos a segui-los para onde fossem, sem aviso prévio, mas também de recrutas, menos comprometidos, e que guardassem bem os segredos.

Foi assim que o liberto Belchior da Silva Cunha, em cuja casa de orações em que se reuniam os muçulmanos (malês), guiados pelo Iman (líder) Luís Sanin “só soube do levante nas vésperas do acontecido”.

A maioria desses africanos, escravos ingleses, era ativos muçulmanos (malês), muitos de longa data e, no entanto, só foram convidados para o levante em cima da hora.

Toda a estratégia dos malês (muçulmanos) era baseada no calendário islâmico e no Alcorão.

Muitos chefes de polícia, tinham que contratar tradutores para ajudar na tradução dos manuscritos em árabe encontrados com os malês (muçulmanos) presos.

A descoberta: a conversão do dia 25 de janeiro de 1835 da era cristã para o calendário islâmico, resultou o esperado: 25 de ramadan A . H . 1250.  Então estavam eles no final do mês sagrado, o Lailat al Qadr (a Noite da Glória). Veja a tradução do manuscrito para o dia do levante: revelamos o livro na noite da Glória. Quisera soubessem vocês como é a Noite da Glória! Melhor que mil meses é a Noite da Glória. Nessa noite os anjos e o espírito têm licença do Senhor para descer com Seus decretos. Essa noite é de paz, até o romper do dia. Alcorão: capítulo 97.

“Até o romper do dia”- teriam os malês (muçulmanos) baianos tentado seguir ao pé da letra a sura corânica?

Estariam eles, quebrando o jejum e esperando o romper do dia para investir contra a ordem escravista?

Ficou bem claro que o ramadan não foi coincidência em relação ao levante de 1835. Assim do ponto de vista malê, se posicionaram do lado do mal os sérios defensores e membros integrados da sociedade branco-escravista; e do lado do bem os militantes do Islam, em plena alegria por estarem a serviço da justa transformação do mundo. 

Uma Califado (Governo Islâmico) Baiano?

Em um transcrito confiscado pela polícia dizia: A vitória vem de Allá (Deus). A vitória está perto. Boas-novas para os crentes.

Os documentos em árabe encontrados pela polícia não continham planos de governo, nem concepções a respeito de mudanças sociais. Como agiam sempre em segredo, é possível que esses planos só seriam revelados após a vitória que não aconteceu.

De acordo com um documento traduzido pelo escravo Albino, a revolta previa uma Bahia para os africanos.É possível que os líderes malês (muçulmanos) pretendiam um dia instalar um Estado Islâmico na Bahia, como aconteceu na África com o Califado de Sokoto sob a liderança de El Kameni, ele próprio um grande devoto, inclusive com passagem por Meca. Não acredito que os malês fossem imbecis para imaginar que em 1835 poderiam enfrentar de uma só vez tantas frentes de luta. Por isso a rebelião foi planejada como uma aliança entre malês rebeldes e demais africanos, em particular os escravos que eles pretendiam libertar no dia da luta. O movimento foi dedurado por negros libertos que juraram fidelidade aos senhores de escravos, que, sabendo do fato avisou a corte imperial.

Por: Leco Carvalho (al Khidr)

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Fonte de pesquisa: Rebelião Escrava no Brasil. (enciclopédia)

 

 

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