ABMRN
Há uma tradição islâmica que narra o seguinte: uma noite, após rezar junto a Caaba, o Profeta Mohammad (que a paz esteja com ele), enrolou-se em seu manto e adormeceu, sendo despertado logo em seguida pelo Anjo Gabriel que o levou, em um cavalo alado, até a Mesquita de Jerusalém (Masjid-ul-Acsa, "a mesquita mais distante", erguida próxima ao Domo da Rocha, hoje também conhecida como a Mesquita de Omar). Lá, o profeta viu uma escada e por ela, em companhia do anjo, ascendeu aos sete céus - o primeiro presidido por Adão; o segundo, por Jesus e João Batista; o terceiro, por José; o quarto, por Enoc; o quinto por Aarão; o sexto, por Moisés e, o sétimo, por Abraão - sendo levado até a árvore de Lótus no Paraíso; de lá seguindo, sozinho, até bem próximo ao Trono de Deus. Durante esta experiência espiritual, Deus disse-lhe que os muçulmanos deveriam fazer a salat (oração) cinquenta vezes ao dia, mas no caminho da volta, Mohammad (que a paz esteja com ele) contou a ordem a Moisés que a considerou excessiva e mandou que ele voltasse até Deus, pedindo uma redução. Mohammad (que a paz esteja com ele) voltou e Deus reduziu o numero de orações diárias, mas Moisés ainda o fez retornar por duas ou três vezes mais, até que as orações diárias foram reduzidas para cinco, numero que Moisés ainda considerou excessivo, mas o Profeta estava envergonhado demais para pedir uma nova redução. E então, desde a época de Medina, ficou sendo obrigatório para os muçulmanos rezarem cinco vezes ao dia, com o rosto voltado em direção a Meca... Esta tradição quer mostrar que a religião não deve ser um fardo esmagador, e sim uma disciplina moderada com que todos podem lidar. No Alcorão, o Livro Sagrado do Islã, a oração é citada 117 vezes como um dom concedido aos homens para a sua ascensão espiritual. Toda a Criação, por sua própria natureza, está submetida e louva ao Senhor, mas só ao homem foi concedida uma parcela de livre-arbítrio. Essa possibilidade de escolha é o que nos aproxima da "imagem de Deus" e nos torna os únicos, entre todas as coisas criadas, "capazes e livres para rezar". A escolha que fazemos determina a grandeza ou a tragédia da nossa condição. Escolher rezar não é a opção mais fácil. Ao contrário! A oração - como expressão da nossa liberdade de escolha - não tem relações com a passividade diante da realidade ou da fé. Exige e estabelece compromissos. Orar pressupõe, sobretudo, agir nos caminhos de Deus. Rabi'a al-´Adawiyya, mística sufi que viveu em Basra (Iraque) do século IX, rezava todas as manhãs: "Ó Deus, esta noite passou e este dia se abriu. Por Teu poder eu persevero e por Teu eterno cuidado incansável me dás energia. Que nada penetre meu coração senão Tua generosidade e bondade." ... Essa prece nos lembra, sobretudo, que orar é estabelecer uma conexão com Deus, é contemplação e entendimento das graças divinas que existem ao redor e dentro do próprio homem. A prece genuína não é um pedido para que as coisas mudem, mas uma tentativa para que a mudança ocorra em nós mesmos. )
Carlos Peixoto
Jornalista
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Em nome de Deus