ABMRN
Em
nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.
Usada
pela primeira vez no contexto dos preparativos que a comunidade
muçulmana, em
Medina, fazia para se defender das ameaças dos habitantes de
Meca e dos
beduínos do deserto, a convocação do
Profeta Muhammad (que a paz e a benção de
Allah estejam com ele) para o jihad
assumiu a conotação imediata de "guerra santa". Ao escolher esta e
não outra palavra - para
expressar apenas o significado de luta armada, a língua no
árabe tem os termos harb (guerra),
sira'a (combate), ma'araka
(batalha) - o Profeta referia-se a "um esforço
físico, moral, espiritual e
intelectual" em defesa da fé, não circunscrito
àquele episódio, mas
extensivo às práticas da comunidade e a
formação individual dos muçulmanos. Um
hadith (tradição)
mostra que Muhammad
(s.a.s), ao voltar de uma batalha, declarou: "Nós voltamos
do jihad menor
para o jihad maior". Ou seja, depois da luta contra os inimigos
externos,
há o esforço bem mais difícil de
derrotar o mal e a descrença que existem
dentro do coração de cada um.
As
obrigações do crente, resumidas nos cinco pilares
da fé islâmica, sinalizam
esse esforço. Elas não incluem o jihad. A
primeira é a profissão de fé (shahada),
mediante a qual o crente reconhece que
"Não há divindade a não ser Allah e
Muhammad é o seu enviado", atesta
sua confiança e sua submissão ao Único
e Todo Poderoso (a shahada
contêm duas partes: a primeira, comum a todas as
religiões
monoteístas; a segunda, especifica para os
muçulmanos). O segundo pilar da fé é
a prece (salat), pela qual se busca
a
orientação de Allah. O terceiro, a
purificação dos bens (zakat),
através de doações
voluntárias para os necessitados ou
obras meritórias, ato que não suprime a
recomendação de dar esmolas (sadaga)
e inclui, por extensão, à
proibição da usura ou de outros lucros
ilícitos à custa da comunidade. O jejum
(siyyam) do mês de
Ramadan, durante o
qual se celebra o início das
revelações do Alcorão e exercita-se o
sentimento
coletivo de proximidade com Allah, é o quarto pilar. O
quinto é a peregrinação
(hajj) a Meca, uma jornada
física ao
centro mundial da fé islâmica, de profundas
conotações místicas para todos os
crentes.
Os
Pilares do Islã testemunham, em primeiro lugar, a Unicidade
de
Allah e a
necessidade da submissão humana à Sua
justiça.
Eles atestam que os fiéis devem
espelhar como indivíduos uma ínfima parte que
seja, um
pálido reflexo da luz e
dos atributos divinos: à Unicidade de Allah corresponde
à
necessidade de
concórdia entre os homens; à Justiça
divina, as
relações de igualdade social; a
Misericórdia do Clemente, à responsabilidade para
com os
menos favorecidos...
Prescritos pelo Profeta aos poucos e como elos unificantes da
fé
e da
comunidade muçulmana que se formava, os Pilares
contêm uma
dimensão social. O
Islã prega não apenas a
edificação moral do
indivíduo, mas também a
construção
de uma sociedade justa, decente e livre de opressões. Dentro
dessa perspectiva,
um muçulmano vê a militância
política como
algo que não contraria a religião.
O
que parece estranho, ao cristianismo atual, é o
Islã aceitar a possibilidade da
"guerra justa". O Alcorão admite - sem hipocrisias - que a
força,
muitas vezes, é necessária à defesa do
bem: "Se Allah não derrotasse os
homens, uns pelos outros, a terra ficaria
corrompida. Deus é generoso para com os mundos" (Sura 2:251). Essa admissão,
entretanto, obriga o muçulmano a uma
outra regra: a busca pelo fim rápido das hostilidades e pela
reconciliação.
Também está escrito que "se eles se inclinarem para a paz, inclina-te
para ela também e confia
A
evidência de que "o esforço no caminho de Deus"
não pode ser expresso
em atos terroristas, como querem os ideólogos do
fundamentalismo islâmico, está
no não atendimento em massa da
convocação feita por Osama Bin Laden, no
Afeganistão ou no Iraque. A maioria dos
muçulmanos, entre árabes e não
árabes
têm consciência de quanto às
ações e o ideário dos grupos
terroristas estão
longe do Islã. O significado original do jihad
está relacionado à conquista da
liberdade, a derrota do mal e dos opressores. Sem
relação com agressões aos
civis inocentes, destruição de propriedades e
matanças indiscriminadas.
Carlos Peixoto
Jornalista
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