ABMRN
A
carência espiritual dos homens e mulheres
contemporâneos é um fato que a
abundância material da vida moderna, a frouxidão
dos limites morais e éticos
nos costumes e a racionalidade exacerbada nas ciências
não conseguem esconder,
explicar ou negar. Consome-se “novidades
religiosas”, traduzidas em novas
igrejas e seitas, com a sofreguidão dos muitos desesperados,
a lassidão dos
desiludidos e a insensatez dos aterrorizados. Pessoas inescrupulosas se
aproveitam de tal estado mental e espiritual para reorganizarem
carreiras
pessoais e fazerem fortunas. São os mercadores da
fé, sobre os quais nos alerta
o Sagrado Alcorão: “Aqueles que ocultam o que
Allah revelou, no Livro, e o
negociam a preço irrisório, não
saciarão suas entranhas senão com o Fogo
(...)”
– Al Bacará:174.
Nos novos supermercados criados por esses
“pregadores” o artigo mais
procurado tem sido o “milagre”,
expressão de um desejo por conforto, paz e
segurança dos que se deixam iludir ou não
conseguem – por ignorância ou
fraqueza – discernir a mentira da verdade. Já na
época do Profeta Mohammad
(saas), os hipócritas e os incrédulos entre os
árabes politeístas exigiam dele
que fizesse milagres e apresentasse prodígios. Os judeus que
não aceitaram o
Sagrado Alcorão exemplificavam com os gênios que
serviam a Salomão (sas),
enquanto os cristãos que duvidavam de um profeta iletrado
argumentavam com as
curas operadas por Jesus (sas). Allah, o Altíssimo,
respondeu a todos: “Acaso,
aguardam que se lhes apresentem os anjos ou o teu Senhor , ou
então que lhes
cheguem sinais D’Ele? No dia em que lhe chegarem alguns de
Seus sinais será
inútil a fé de quem não tiver
acreditado antes ou que, em sua crença, não tiver
agido com retidão. Dize: Aguardai, que nós
aguardaremos”. – Al Na’Am: 158
Para
os que se mantêm nesta atitude mental – a
expectativa pelos milagres
– o Islã, certamente, poderá parecer
“pouco religioso”. Não há
milagres na vida
e na pregação do Profeta Mohammad (saas), a
não ser a própria Revelação
recebida de Allah, o Justo, através do anjo Gabriel. O fato
de um homem maduro,
nem rico nem pobre, iletrado, preocupado com seus negócios e
família para
sustentar e – não obstante, temente e recordador
de Allah – ter sido escolhido
para trazer ao mundo a última das Mensagens Divinas para a
salvação da
humanidade, é por si mesmo um sinal da
Benevolência e da Infinita Sabedoria
divinas. Alguns exegetas islâmicos vêem
al-isrá ual miraj como a ascensão
corpórea de Mohammad (saas) aos céus e, portanto,
como “um milagre”. Mas, o
fato da viagem não estar descrita no Alcorão
(há apenas duas referências: Al
Isrá:1 e An Najm:18) corrobora uma
tradição (hadith) deixada por Aisha (sa)
–
uma das esposas do profeta – que a viagem noturna foi uma
experiência mística e
pessoal da qual Mohammad (saas) nunca fez alardes, dando-nos o exemplo
de que
os verdadeiros crentes “desprezam a
exibição e a
ostentação” das qualidades e
dons espirituais que possuem.
O
místico persa Abu Said, certa vez, riu de alguns faquires
que se orgulhavam
de poder andar sobre a água, voar e projetarem mentalmente
seus corpos de um
lugar para outro. “Uma rã também se
sente em casa na água, um corvo e um abutre
voam facilmente pelos ares e o Diabo tanto pode estar no Ocidente como
no Oriente”
- observou Abu Said - “O crente verdadeiro é o que
vive com retidão entre seus
companheiros, o que compra e vende e, todavia, nem por um instante
esquece
Allah!”. Jesus (sas), apesar das curas e da
ressurreição dos mortos que
realizou, também foi discreto quanto aos dons que lhe foram
concedidos por
Allah, o Misericordioso. No Evangelho de João (4:48), ele
alertou sobre o
perigo da crença fundamentada apenas no testemunho de
milagres.
A
atitude mental é o que importa. Tanto para testemunhar
milagres –
quando eles ocorrem pela absoluta vontade e iniciativa divinas
– quanto para
saber limitar esses mesmos milagres ao lugar real que lhes cabe na
verdadeira
fé: meras figurações que,
às vezes, se fazem necessárias para que o
insondável
Poder de Allah se manifeste e seja crível aos homens. O tipo
de atitude certa
torna possível que um crente se volte inteiramente para
Allah. Uma mente
purificada, equilibrada e corretamente orientada quanto a sua
própria natureza
produz saúde, alegria, conforto e paz para o corpo e para o
espírito. Uma mente
impura, temerosa e extraviada quanto as suas atividades permite o
surgimento de
doenças, aflições e desconfortos
generalizados.
Uma
última lembrança: por atitude nenhum dos mestres,
místicos e profetas
aqui citados queriam se referir somente as nossas
ações. O significado amplo e
correto de “atitude mental” se reproduz
não no cérebro, mas no
coração. “Allah
jamais muda as mercês com que tem agraciado um povo, a menos
que este mude o
que há em seu íntimo; sabei que Allah
é Oniouvinte, Sapientíssimo”
– Al’
Anfãl:53
Carlos Peixoto
Jornalista
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Ciência X Religião:um conflito inútil